Vida de casal: sou praticante do desapego | Universo do Bebé

Recentemente fiz uma viagem e como é habitual fui publicando algumas imagens no Instagram. Numa das fotos recebi um comentário que dizia: “Admiro conseguir estar longe dela, eu não consigo fazer isso (…) não consigo sequer ir jantar fora. Ir vou, mas não me sabe nada bem. Não é uma crítica, é admiração mesmo”.

Fiquei a pensar nesta mensagem. Nas redes sociais pode ser que passe uma sensação de que não me custa o desapego, que o faço descontraidamente, mas não é verdade. No que toca a viagens, a minha diferença para este comentário é que eu sou muito racional. Quando me considero praticante do desapego, não é a coisa mais natural do mundo, é um exercício de coração vs cérebro.

A primeira vez que me separei da minha filha foi para ir ao Porto em trabalho, ela devia ter uns quatro meses. Ficou com o pai e fi-lo tranquilamente. A noite de sono longa e ininterrupta soube-me pela vida, ainda hoje me lembro. A primeira vez em que os dois nos separámos dela para viajar, ela tinha seis meses e ficou cerca de uma semana com a minha mãe enquanto fomos para o outro lado do Atlântico.

Estava cheia de vontade de finalmente ir viajar com o meu marido, mas no dia da partida quase me apetecia desistir. Obriguei-me ao controle, a recuperar o meu “eu” de sempre, sei que não quero ser emocionalmente dependente da minha filha nem quero que o mundo dela seja só eu. Tem de existir uma vida além da maternidade! Mas (nisto há um “mas”), a segurança dela na minha ausência nunca foi uma questão para mim. Fica com a minha mãe, a ama continua a tomar conta dela em casa da minha mãe, sei que é tão bem tratada quanto eu a trato bem, estou absolutamente descansada. A segurança e o conforto dela na minha ausência não são uma preocupação e isso é fundamental para uma mãe poder praticar o desapego.

Um par de meses mais tarde, quando ela tinha um ano e meio, fiz um cruzeiro. Foi a vez que ficámos mais tempo afastadas, nove dias. Depois de a deixar na minha mãe, entrei no carro e chorei, chorei, chorei com o consolo do meu marido. É um sentimento normal, choro com a perfeita consciência de que a tristeza é temporária. Depois vem a azáfama da viagem, malas, aeroporto, a cabeça fica lotada, os pensamentos são outros, no voo pensei nela com carinho, consultei fotos guardadas no telefone e na chegada ao destino usei o telefone.

Está tudo bem. Está sempre tudo bem. E depois desse contacto começa a vida a dois, o tempo para nós e é maravilhoso! Não falta tecnologia que permita estar próxima estando distante e contacto apenas uma vez por dia. A conclusão das nossas viagens é que só custa aos pais, ela adora estar em casa da avó.

Há poucas semanas fiz uma nova viagem. Desta vez não pude acompanhar o meu marido para levá-la à minha mãe, pelo que me despedi dela ainda em casa. Quando regressou, perguntou: “então, choraste?” e eu respondi “quase, mas obriguei o corpo a absorver as lágrimas de volta”. E é isto, é um exercício interno que se uma pessoa não é capaz de fazer racionalmente, para mim entra no campo de incapacidade.

As pessoas esquecem-se de que ter saudades é bom para qualquer tipo de relação e saber que há mundo além dos pais é saudável. Se os pais querem ter vida de casal antes que a criança chegue aos 12 anos, convém não esquecer que se não fizerem isto desde tenra idade, quando as crianças começam a ganhar noção de distância aí sim gera-se uma sensação de abandono porque a ausência nunca foi experienciada. Com 19 meses a minha filha já tem um excelente currículo de temporadas fora de casa e hoje em dia quando entra na casa da avó de malas, vai de sorriso. Quando regressamos não notamos qualquer alteração de comportamento: ri-se, dá-nos um abraço e volta a brincar como se estivéssemos estado fora por um par de horas.

Saber estar longe é um trabalho interno de auto-análise, mas confesso que nunca me aconteceu não saborear um jantar por estar longe dela. Não condenando as mães que sofrem desse sentimento, tenho de ter a honestidade de dizer que para mim isso entra num registo pouco saudável. E se o sentimento não é controlável, procurar um psicólogo pode ser uma solução. Deixamos as crianças na escola porque têm de receber educação, custa-nos, mas sabemos que tem de ser. O que eu faço é a mesma coisa, custa, mas tem de ser para que eu continue a ter vida. E uma vez chegando ao destino fico cheia de vontade de saborear os dias a dois que temos pela frente!

Além disso, convém pensar na dinâmica de casal. Para o marido pode ser uma frustração perceber que afinal tem ao lado uma mãe e não a mulher que também é mãe do filho. O meu marido tem um colega que se separou exactamente por isto, a mulher desapareceu para se fundir com o filho e o casal deixou de existir.

Se custa separar-me da minha filha? Custa sempre, umas vezes mais, outras menos, depende do meu estado emocional na altura de partir e do número de dias que vou estar fora. Se acho que algum dia me vai deixar de custar? Não sei, acho que vai custar sempre. No entanto, a prática tem mostrado que a habituação é boa para todos. 

Um dia os filhos vão embora, seguem a sua vida. Para que sejam adultos preparados para o mundo, é bom que não sejam emocionalmente dependentes de nós, nem nós deles.